Por Rickardo Medeiros
Era
uma segunda-feira de um novembro incomum no ano de 1976. A Chevrolet D10,
naquela madrugada quase clara, corria numa celeridade insistente os caminhos do
sítio Limoeiro, a poucos quilômetros da acanhada cidadezinha que tem por nome São
Fernando.
Minha
mãe, uma jovem professora rural de 29 anos, estava contorcendo-se de dores a
ponto de parir-me ali, dentro da bulé daquela comioneta que se agitava ao sabor
da hibridez daquela estrada.
Chegamos
à Caicó já claro do dia e desapossei-me daquele mundo aconchegado, que era seu
ventre, precisamente às 06h:30m. Era 22 de novembro, a data em que também nascia
há 35 anos aquele homem que a vida me entregava como pai.
Papai
era um tipo magro, mais alto que baixo, de aspecto sério - menos quando estava
entre amigos! - Sempre vestido com uma certa imprevisão, não completamente
relaxado. Em seu semblante sereno, sem ambições, existia um quê de sofrimento
que lhe acrescentava um toque de sensibilidade, mas era sempre difícil definir
que espécie de sofrimento existia naquele ar de homem tão firme. Talvez tenha
sido um acúmulo da vida.
Mas
ele era um homem sensível, doce em suas atitudes, embora sempre tivéssemos medo
de seu braço-de-ferro, aquilo que estava por trás do homem intransigente
conseguia nos atingir com pequenos gestos de amor que nos fazia sentir-nos
verdadeiramente amados e protegidos.
Na
verdade ele sempre esteve muito presente em todas as fases de nossas vidas,
mesmo que de forma discreta, mas nunca velada. Papai foi um homem participativo,
por que marcou intensamente cada momento de minha existência. Lembro-me que nos
primeiros anos, ainda quando eu era aquele guri miúdo sapeca que vibrava quando
ele chegava exausto, empuxando aquela enorme bicicleta de carga com dois cestos
abissais esvaziados: um na garupa e o outro no carregador frontal. Eu corria ao
seu encontro para apossar-me dos cestos vazios afim de catar as migalhas de
coco que sobrava dos pães doces que distribuía nos supermercados. - Era uma
festa!
Fui
crescendo em meio a um turbilhão de problemas que envolviam, além da minha
grande família, também o meu país. Aos nove anos, mesmo sem entender
absolutamente nada de política sentia seus impactos diretamente em nossas
vidas. O Brasil vivia um processo lento e doloroso de redemocratização. Na
época estávamos variando em uma crise econômica e uma terrível inflação que nos
gerava uma insegurança terrível. Mas lembro que inicialmente tivemos uma
melhoria nas condições de vida. Papai até comprou uma VW Brasília verde de seu
compadre e mandou pintá-la de branco. Também naquela época adquiriu terrenos e
uma nova habitação através de um programa do governo, em um bairro, do outro
lado de um dos rios que cortava a nossa cidade. Visitamos poucas vezes a nossa furtura
casa. Lembro-me de seus planos de construir um quarto para mim e meu irmão, já
que a construção era acanhada e careceria de reparos para atender as nossas
necessidades. Mas só de pensar em mudar o meu ciclo de amizades, a ideia de
viver em outra comunidade causava-me amargura e eu dizia categoricamente que
não queria sair do lugar onde cresci. Mas logo, a perdemos! Papai vendeu sua Brasília branca
para um vizinho, com o tempo os terrenos foram servindo para cobrir as dívidas
e nossas vidas foram tomando os rumos das de milhões de brasileiros.
Mas
desse curto período tenho gravado algumas loucas aventuras naquela Brasília. Eu
acabava de completar dez anos. Nossa rua ainda não era calçada. Passear com a
família na Brasília, tendo meu pai na direção, sem dúvidas, era uma satisfação
incomum, mas também um risco eminente de incidentes. Ele era aquela espécie de
motorista “cangueiro” – pra quem não entende esse dialeto, essa expressão era
usada para pessoas que pilotavam extremamente mal. O típico condutor que não
economizava xingamentos quando saía pilotando seu veículo arrancando garajais
que protegiam as árvores da rua. Minha mãe esquivava-se desses passeios, e
sempre que podia, evitava-o na direção. A confiança que tínhamos mesmo era no
meu irmão mais velho.
Meu
velho ainda tentou persuadir minha mãe a instruir-se na pilotagem daquela
Brasília. Ela, a muito custo aceitou a ideia e fomos. Num campo de futebol,
papai teorizava os passos que minha mãe deveria seguir na prática, depois de
ligar as chaves. Lembro-me que de longe assistia a fatídica aula que
traumatizou minha mãezinha. O carro de uma arrancada saiu desgovernado
ziguezagueando até parar. Ela saiu chorando nervosa dizendo que nunca mais iria
pôr as mãos naquela direção, enquanto ele ria. Eu enquanto moleque sonhava em
chegar a maioridade para poder pilotar aquele carro, mas não demorou muito
tempo para que ele fosse vendido.
Nossas
vidas foram uma coletânea de aventuras, muitas delas meio que irresponsáveis.
Dessas histórias simples posso ver o quanto eu e meu pai éramos parecidos.
Todo
novembro eu fazia questão de lembrar que eu era aquele presente que a vida
havia lhe dado, e com tempo fui intuindo que era o contrário. Ele que foi o meu
grande presente. Meu paizinho foi o melhor que a vida pode me dar como dádiva.
O homem que lutou a vida inteira em vista do meu sustento, do meu conforto, do
meu estudo. Derramou literalmente seu sangue para poupar seus filhos das
mazelas que por tantas vezes ele havia padecido. Nesse percurso de tempo papai
sofreu um acidente de trabalho que quase lhe custou a perna direita e outro
que, por um fio não lhe tirou a vida. Mas afrontou a morte, insistiu na vida,
mesmo com as implicações dessas feridas, prosseguiu na sua velhice com o peso
crônico de suas moléstias.
Esse
é o segundo novembro que passo sem ele e o primeiro de muitos que não irei
ouvir da voz da minha mãezinha dando-me os parabéns. Meus novembros se
converteram em dias que anunciam, aos poucos, minha partida, que falam de dor e
de mortes eternas. Todos os dias desse novembro traz-me à tona um fato que
recuso, que me rouba pretextos para sorrir e razões para solenizar.
Novembro
sem eles se desenhou assim: em um mês triste que irei celebrar a cada resto de
vida que me resta. Pois o que me sobra agora é só um passado. Um passado bom e
eterno que se vinculará pelos futuros que ainda a vida há de me oferecer.