sexta-feira, 11 de setembro de 2020



POR RICKARDO MEDEIROS

Escrever para mim sempre foi um cano de escape. Ao longo da minha vida, experimentando muitos sentimentos diferentes, não bastou compreendê-los; eles precisaram ser escritos, trazidos à luz para serem vistos nas palavras. Registrar o que penso sempre foi uma verdadeira terapia, principalmente em meus momentos de profundas tristezas.

Hoje, o que tenho a dizer, não chega a ser tão bonito e confortante, nem um pouco romântico, principalmente para os meus amigos mais espiritualistas ou aqueles mais tendenciosos a catequese sedutora da teologia do conformismo, mas acredito no raciocínio lógico das coisas. Quanto mais dor eu sinto, mais racional eu fico. Nunca consegui - nem quando quis - espiritualizar a dor, tampouco as conquistas. Simplesmente isso é inerente a condição da nossa espécie e pronto! Isso basta para que entendamos que não somos capazes de mudar o nosso infausto destino.  O fato é que precisamos ensinar nossas crianças a também perder. Falo isso tomando por base a vida, que nem sempre nos oferece aquilo que queremos ou idealizamos. Toda a nossa existência é marcada de contradições. Têm coisas que acontecem – é claro - que realmente não dá para aceitar viver no absoluto da morte. Porque a morte nos sentencia uma condição de não mais tentar, de entregar-se, render-se a uma realidade que não muda e jamais mudará.

Mas o fato é que perder é uma constante na vida de qualquer ser humano. Quando ganhamos por um lado, perdemos pelo outro. E vejo que essa dinâmica chega a ser salutar para quem entende que não somos eternos. Aceitar as perdas é tão importante quanto vibrar com a vitória. Há muitos que não a suportam e sucumbem porque construíram no consciente a realidade de que nossa espécie nasceu para vencer, custe o que custar. E pouco importa as consequências dessas conquistas. Tudo isso é porque nós, sapiens, fomos tecidos para obter êxitos em nome de um deus. É assim que acontece, desde pequenininhos, quando entramos naquela escola que, direta ou indiretamente, nos doutrina nessa catequese religiosamente capitalista. Essa cultura nos forjou esse espírito egocêntrico e intolerante de não suportar a perda. E agora, temos que sofrer até o fim com ela, porque é disso que fomos constituídos. É nisso que a evolução do sapiens nos transformou: num rebanho de incapazes de lidar com o sofrimento e que busca, constantemente, agarrar-se a uma entidade que supostamente solucione os seus problemas.

Não sou pai, embora sempre quisesse isso, mas acho que a experiência de vida me rendeu condições e propriedade para falar sobre essas coisas e fazer entender que o mais importante não é educar nossas crianças para um mundo que, os próprios espiritualistas nem acreditam, mas que sempre é conveniente acreditar, porque ilude nossa dor, anestesia o sofrimento, dribla o raciocínio e nos desconecta um pouco dessa dura realidade de viver.

Não entreguemos nas mãos de Deus aquilo que compete a nós mesmos fazermos. Deixemos de catalogar como vontade divina aquilo que é simplesmente culpa nossa. Quase um milhão de mortes no mundo em uma pandemia, não tem nada a ver com vontade divina. Pra mim, é tão cruel ter que ouvir isso... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário