domingo, 22 de novembro de 2020

UM PRESENTE DE ANIVERSÁRIO



Por Rickardo Medeiros

Era uma segunda-feira de um novembro incomum no ano de 1976. A Chevrolet D10, naquela madrugada quase clara, corria numa celeridade insistente os caminhos do sítio Limoeiro, a poucos quilômetros da acanhada cidadezinha que tem por nome São Fernando.

Minha mãe, uma jovem professora rural de 29 anos, estava contorcendo-se de dores a ponto de parir-me ali, dentro da bulé daquela comioneta que se agitava ao sabor da hibridez daquela estrada.

Chegamos à Caicó já claro do dia e desapossei-me daquele mundo aconchegado, que era seu ventre, precisamente às 06h:30m. Era 22 de novembro, a data em que também nascia há 35 anos aquele homem que a vida me entregava como pai.

Papai era um tipo magro, mais alto que baixo, de aspecto sério - menos quando estava entre amigos! - Sempre vestido com uma certa imprevisão, não completamente relaxado. Em seu semblante sereno, sem ambições, existia um quê de sofrimento que lhe acrescentava um toque de sensibilidade, mas era sempre difícil definir que espécie de sofrimento existia naquele ar de homem tão firme. Talvez tenha sido um acúmulo da vida.

Mas ele era um homem sensível, doce em suas atitudes, embora sempre tivéssemos medo de seu braço-de-ferro, aquilo que estava por trás do homem intransigente conseguia nos atingir com pequenos gestos de amor que nos fazia sentir-nos verdadeiramente amados e protegidos.

Na verdade ele sempre esteve muito presente em todas as fases de nossas vidas, mesmo que de forma discreta, mas nunca velada. Papai foi um homem participativo, por que marcou intensamente cada momento de minha existência. Lembro-me que nos primeiros anos, ainda quando eu era aquele guri miúdo sapeca que vibrava quando ele chegava exausto, empuxando aquela enorme bicicleta de carga com dois cestos abissais esvaziados: um na garupa e o outro no carregador frontal. Eu corria ao seu encontro para apossar-me dos cestos vazios afim de catar as migalhas de coco que sobrava dos pães doces que distribuía nos supermercados. - Era uma festa!

Fui crescendo em meio a um turbilhão de problemas que envolviam, além da minha grande família, também o meu país. Aos nove anos, mesmo sem entender absolutamente nada de política sentia seus impactos diretamente em nossas vidas. O Brasil vivia um processo lento e doloroso de redemocratização. Na época estávamos variando em uma crise econômica e uma terrível inflação que nos gerava uma insegurança terrível. Mas lembro que inicialmente tivemos uma melhoria nas condições de vida. Papai até comprou uma VW Brasília verde de seu compadre e mandou pintá-la de branco. Também naquela época adquiriu terrenos e uma nova habitação através de um programa do governo, em um bairro, do outro lado de um dos rios que cortava a nossa cidade. Visitamos poucas vezes a nossa furtura casa. Lembro-me de seus planos de construir um quarto para mim e meu irmão, já que a construção era acanhada e careceria de reparos para atender as nossas necessidades. Mas só de pensar em mudar o meu ciclo de amizades, a ideia de viver em outra comunidade causava-me amargura e eu dizia categoricamente que não queria sair do lugar onde cresci. Mas logo,  a perdemos! Papai vendeu sua Brasília branca para um vizinho, com o tempo os terrenos foram servindo para cobrir as dívidas e nossas vidas foram tomando os rumos das de milhões de brasileiros.

Mas desse curto período tenho gravado algumas loucas aventuras naquela Brasília. Eu acabava de completar dez anos. Nossa rua ainda não era calçada. Passear com a família na Brasília, tendo meu pai na direção, sem dúvidas, era uma satisfação incomum, mas também um risco eminente de incidentes. Ele era aquela espécie de motorista “cangueiro” – pra quem não entende esse dialeto, essa expressão era usada para pessoas que pilotavam extremamente mal. O típico condutor que não economizava xingamentos quando saía pilotando seu veículo arrancando garajais que protegiam as árvores da rua. Minha mãe esquivava-se desses passeios, e sempre que podia, evitava-o na direção. A confiança que tínhamos mesmo era no meu irmão mais velho.

Meu velho ainda tentou persuadir minha mãe a instruir-se na pilotagem daquela Brasília. Ela, a muito custo aceitou a ideia e fomos. Num campo de futebol, papai teorizava os passos que minha mãe deveria seguir na prática, depois de ligar as chaves. Lembro-me que de longe assistia a fatídica aula que traumatizou minha mãezinha. O carro de uma arrancada saiu desgovernado ziguezagueando até parar. Ela saiu chorando nervosa dizendo que nunca mais iria pôr as mãos naquela direção, enquanto ele ria. Eu enquanto moleque sonhava em chegar a maioridade para poder pilotar aquele carro, mas não demorou muito tempo para que ele fosse vendido.

Nossas vidas foram uma coletânea de aventuras, muitas delas meio que irresponsáveis. Dessas histórias simples posso ver o quanto eu e meu pai éramos parecidos.

Todo novembro eu fazia questão de lembrar que eu era aquele presente que a vida havia lhe dado, e com tempo fui intuindo que era o contrário. Ele que foi o meu grande presente. Meu paizinho foi o melhor que a vida pode me dar como dádiva. O homem que lutou a vida inteira em vista do meu sustento, do meu conforto, do meu estudo. Derramou literalmente seu sangue para poupar seus filhos das mazelas que por tantas vezes ele havia padecido. Nesse percurso de tempo papai sofreu um acidente de trabalho que quase lhe custou a perna direita e outro que, por um fio não lhe tirou a vida. Mas afrontou a morte, insistiu na vida, mesmo com as implicações dessas feridas, prosseguiu na sua velhice com o peso crônico de suas moléstias.

Esse é o segundo novembro que passo sem ele e o primeiro de muitos que não irei ouvir da voz da minha mãezinha dando-me os parabéns. Meus novembros se converteram em dias que anunciam, aos poucos, minha partida, que falam de dor e de mortes eternas. Todos os dias desse novembro traz-me à tona um fato que recuso, que me rouba pretextos para sorrir e razões para solenizar.

Novembro sem eles se desenhou assim: em um mês triste que irei celebrar a cada resto de vida que me resta. Pois o que me sobra agora é só um passado. Um passado bom e eterno que se vinculará pelos futuros que ainda a vida há de me oferecer. 

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