Assim transcorrem minhas noites: meu pensamento e minhas
narrações se inserem num contexto de imagens que simulo em minha mente. E ele
vem pra mim, sempre assim, feito fome de amor, feito uma explosão arrebatadora
de sentimentos. Bem poucas são as horas
que ainda não me concentro nele, porque ele sempre vem como vento impetuoso, derruindo
os estorvos da vida e ao começar esse tumulto, de repente, não só a minha, mas
nossas cabeças entram numa atividade frenética de compor frases e textos, de
compor palavras que querem se tornar vivas.
Estou irremediavelmente desperto, exposto à criatividade
melancólica, daquelas que só os poetas deprimidos conseguem ter, cruelmente nu
e vulnerável diante de meus pensamentos. Vai começar tudo de novo! Esse domingo
opaco vai ser longo. Puxa vida, que frio! Que fome! Quanto cansaço, quanta
distância nos separa agora. Melhor me concentrar na tela do celular e no gozo
daquela cena imaginada a partir de um retrato quase abstrato. E durante uns dez
minutos (até que eu tenha gozado), designarei tudo daquela imaginação como se
fosse nosso gozo, nosso beijo, nosso abraço...
Após a ilusão, abro os meus olhos e vejo a cortina de
estrelas além da janela. Continuo aqui, e sua ausência também. Ela é uma boa
companhia. Não me deixa um segundo. E enquanto saio da cama para o banheiro,
sob meus passos permanecem os vestígios dos teus. Procuro mais rastros. Vou até
a geladeira buscar um copo de água. Olho mais uma vez além da janela e observo
a rua vazia. Tão vazia quanto esse espaço, quanto a nossa cama. Talvez esse
vácuo possa ser um sinal, um espaço onde você poderá se hospedar por mais 23
anos.
Ligo o PC, procuro minha música favorita. Como de costume,
repito e repito olhando sua expressão congelada numa foto em preto e branco que
imprimi, que pelo aspecto de sua expressão aparenta que está pensativo. Estou
quase feliz enquanto busco mais retratos, pensando vagamente que já fui assim contemplativo.
E com essa mesma insistência, todas essas coisas eu faço e vejo nestes momentos
que falta o sossego, falta você, falta a alegria de te ter personificado a meu
lado.
Uma implícita convenção me diz que eu não faça nada, não
ligue, não chore, não pense. Num instante, meu corpo dorme, deitado ao lado do
seu (retrato), mas minha alma, por trás das pálpebras recém-fechadas, passeia
levemente naqueles sonhos de sempre: De estar contigo, abraçado na cama, te
amando pela madrugada.
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