domingo, 27 de fevereiro de 2022

Irremediavelmente exposto à criatividade melancólica

 


Assim transcorrem minhas noites: meu pensamento e minhas narrações se inserem num contexto de imagens que simulo em minha mente. E ele vem pra mim, sempre assim, feito fome de amor, feito uma explosão arrebatadora de sentimentos.  Bem poucas são as horas que ainda não me concentro nele, porque ele sempre vem como vento impetuoso, derruindo os estorvos da vida e ao começar esse tumulto, de repente, não só a minha, mas nossas cabeças entram numa atividade frenética de compor frases e textos, de compor palavras que querem se tornar vivas.

Estou irremediavelmente desperto, exposto à criatividade melancólica, daquelas que só os poetas deprimidos conseguem ter, cruelmente nu e vulnerável diante de meus pensamentos. Vai começar tudo de novo! Esse domingo opaco vai ser longo. Puxa vida, que frio! Que fome! Quanto cansaço, quanta distância nos separa agora. Melhor me concentrar na tela do celular e no gozo daquela cena imaginada a partir de um retrato quase abstrato. E durante uns dez minutos (até que eu tenha gozado), designarei tudo daquela imaginação como se fosse nosso gozo, nosso beijo, nosso abraço...

Após a ilusão, abro os meus olhos e vejo a cortina de estrelas além da janela. Continuo aqui, e sua ausência também. Ela é uma boa companhia. Não me deixa um segundo. E enquanto saio da cama para o banheiro, sob meus passos permanecem os vestígios dos teus. Procuro mais rastros. Vou até a geladeira buscar um copo de água. Olho mais uma vez além da janela e observo a rua vazia. Tão vazia quanto esse espaço, quanto a nossa cama. Talvez esse vácuo possa ser um sinal, um espaço onde você poderá se hospedar por mais 23 anos. 

Ligo o PC, procuro minha música favorita. Como de costume, repito e repito olhando sua expressão congelada numa foto em preto e branco que imprimi, que pelo aspecto de sua expressão aparenta que está pensativo. Estou quase feliz enquanto busco mais retratos, pensando vagamente que já fui assim contemplativo. E com essa mesma insistência, todas essas coisas eu faço e vejo nestes momentos que falta o sossego, falta você, falta a alegria de te ter personificado a meu lado.

Uma implícita convenção me diz que eu não faça nada, não ligue, não chore, não pense. Num instante, meu corpo dorme, deitado ao lado do seu (retrato), mas minha alma, por trás das pálpebras recém-fechadas, passeia levemente naqueles sonhos de sempre: De estar contigo, abraçado na cama, te amando pela madrugada.

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