terça-feira, 3 de outubro de 2017


POR RICKARDO MEDEIROS

Tocar em certos assuntos me custa. Antes porque me vejo tão mal diante dessa briga ideológica que acaba se formando entre mim e outras pessoas que aprecio. De todo modo, são coisas que me levam a refletir e entender muito sobre meu papel e o de tantos outros. 
Esta semana me causou náuseas certos comentários lidos nos artigos de colunistas que se mostravam favoráveis a exposição do MAM e me reportei a conceitos básicos que aprendi na escola sobre a arte e a humanização do homem. E me fiz, mais uma vez a pergunta que há décadas fazia ao meu professor do ensino médio: afinal de contas, para que serve a arte? Contudo, este esforço de compreender para que servia a arte hoje me fez um homem consciente de que, mais do que nunca, precisamos de uma educação libertária em uma escola que não têm convencido a maioria dos brasileiros, ver a arte como um componente de utilidades.
Ao meu ver, polêmicas como essa do MAM é mais uma prova cabal de que a intolerância e  a burra incapacidade do brasileiro absorve ideias perigosas com tanta força e uma presunção tão grande quanto a necessidade que se tem de acreditar de que tudo tem que funcionar exatamente como sua moral manda. A intolerância do brasileiro é fruto sim da sua falta de inteligência, é fruto de uma incapacidade de considerar a possibilidade de que todo ser humano não precisa ter o mesmo gosto ou o mesmo pensamento. É fruto do querer simplesmente que o mundo gire em torno de certos grupos e preceitos. Por isso ela é excludente, perigosa e abominável.
Perdoem-me os amigos moralistas de plantão, mas esse papo de pedofilia associada a performance do La Bête, pra mim é uma bagagem de comentários idiotas. Vocês que pensam assim se sente no direito de julgar e também definir o que é arte, o que se deve fazer para que  ela se enquadre dentro de seus parâmetros de  certo ou errado. Vocês, que acham mesmo que isso é amoral e inaceitável são capazes de se apegarem aos mais puros sentimentos e ideais, além de transformá-los em uma verdade violenta, normalmente carregada de fúria. Tudo movido pelo simples fato de querer que o outro tenha a mesma opinião. É isso que está acontecendo.
As ideias não precisam concorrer umas com as outras, apenas conviver em harmonia. Acredito que o processo de reconhecimento das nossas diferenças começa na nossa educação. Este é o motivo de tanta intolerância: a falta dela.  Do mesmo modo acredito que as escolas devam acompanhar esse movimento, abrindo-se como aliada das famílias, para construir um espaço de discussão e enfrentamento a essa guerra ideológica absurda que se implanta nesse país. 
Por fim, para encurtar conversa, você intolerante, acredita que tem em suas mãos a única e poderosa verdade e a capacidade de questionar a arte? Por favor, sofremos vexames demais. Seria, no mínimo inteligente fechar a boca para nos poupar desse ridículo. Esta deficiência de sequer pensar na possibilidade de estar errado é o mais marcante entre os “donos da verdade”. Impor sobre o outro uma ideia ou um comportamento único é uma agressão. É triste, mas o fato é que somos agredidos por todos os lados.

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