POR RICKARDO MEDEIROS
E depois dos quarenta?
Estava aqui folheando o meu livro da vida -
Aquele que está impresso na memória. Que nos constrói como seres humanos. E
hoje me dei conta que já entrei para uma etapa de minha existência que me
obriga a entender que se somos proezas de uma história, também somos feitos de
partidas.
Quem já passou dos quarenta anos já deve
também ter experenciado muitas despedidas: nossos ídolos de infância, nossos
cantores preferidos da adolescência, nossa professora do primário, um
coleguinha de escola, aquele amigo de meninice, que até então nem falava
contigo, mas que ficou registrado em nosso livro como se o fosse pra sempre
amigo. O inspetor da escola, o senhor simpático que morava na nossa rua, até
aquele velho ranzinza que não gostava de crianças, está lá impresso com letras
graúdas em alguma página do nosso livro de memórias.
Mas quando passamos dos quarenta... quando
passamos dos quarenta é momento da gente entender que a vida não é um filme que
sempre termina com um desenlace que nos acarinha. Que ela, por vezes é muito
amarga e que é preciso segui-la mesmo com esse gosto azedo de fel em nossa boca.
Comecei falando dessas experiências que nos
construíram para chegar a uma especialmente traumática e avassalante. Aquela
que me destruiu completamente por dentro me deixando sem chão, sem ar, sem
forças. Engraçado, mas também um dia me senti assim, quando ainda acomodado em
seu útero: completamente dependente de suas forças vitais para continuar vivendo
nela, com ela e por ela, fui arrancado dali, sem que me pedissem licença. E
nessa primeira ruptura, quando deixei o seu interior comecei a instruir-me sozinho,
a respirar sozinho, a digerir as coisas sozinho, a viver sem depender
completamente dela. Mas doeu! Foi desconfortante. A diferença é que ela ainda
está lá, me ajudando a superar tudo isso.
Hoje acordei folheando as páginas da minha
vida em um capítulo especial, porque é como me sinto agora. Igualzinho a esse
menino de oito anos que adorava seu colo, que usava o choro desesperado na
falta de argumentos para reclamar alguma coisa, até mesmo o seu carinho. Hoje
me sinto como aquele Ricardo menino que por qualquer pequeno motivo que fosse,
corria para aquele colo confortável e restaurador.
E essas lembranças vem povoando minha
cabeça ao passo que folheio esse livro inacabado carregado de cenas
profundamente tristes, mas não apenas tristes. Houve sim, muitos momentos
felizes.
Mamãe era uma mulher inigualável. Ela sabia
tirar boas lições até de seus profundos traumas, sabia colorir as páginas em
preto e branco de seu livro de memória e torna-lo bonito, agradável. Era isso
que eu adorava. Ela falava de sua infância com um ar de saudosismo que me
provocava.
Sem dúvidas, depois dos quarenta a gente
tem muitas páginas escritas nesse livro mesclado por todos os gêneros
literários. E agora começo uma nova etapa: o desfecho.
Depois dos quarenta anos, começo a minutar
o desfecho de minha história sem contar com a principal personagem e autora que
sempre me motivou a escreve-la. A única criatura do universo que sabia ler nas
minhas entrelinhas. Seu amor, sempre foi assim: acima de qualquer problema.
Sinceramente? Não sei por onde começar.
Depois dos quarenta sinto-me como aquele menino recém-saído do ventre outra
vez: sem ar, sem ambiente...
Não sei como será. Dizem os mais
experientes que a gente supera. Não sei até que ponto isso possa ser uma
verdade. Só sei que metade de mim morreu com ela. Nenhum ser humano pode ser o
mesmo depois que sua mãe deixa de existir no físico para povoar a anfiteatro de
suas lembranças.
Hoje sei que começa uma nova etapa da minha
vida. Um novo capítulo desse livro que já dá sutis sinais para a conclusão
dessa biografia. Para muitos que o lerem verão que se tratará de um capitulo
frio, estéril, sem aspirações, sem vida, sem ações, brincadeiras, sentimentos,
pois é assim que me encontro hoje. Não me sinto um homem e sim um espectro que
apenas vagueia, respira, come, bebe, mas que não almeja absolutamente nada.
Por enquanto, depois dos quarenta, essa é a
minha vida, ou o que restou dela.

Perder entes queridos, realmente nos deixa incompletos.Um forte abraço,meu amigão e conte comigo sempre. Te amo!
ResponderExcluirMuito obrigado, amigo! De todo coração
ExcluirCom certeza, amigo querido, sua vida não será mais a mesma. Seguirá incompleta e repleta da saudade que brotará. Haverá dias em que a busca e as lembranças serão mais intensas. Lindo seu texto. Bem preciso dentro da sua nova realidade. Uma certeza, porém, você pode continuar a ter, pois nada a mudará: você continua sendo o filho querido da sua mãe, motivo de orgulho para ela. Um grande abraço!
ResponderExcluirObrigado por tudo o que tem feito, amiga. Embora não percebas, tuas palavras sempre serviram de balsamo para a minha alma cansada.
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