quinta-feira, 10 de setembro de 2020

E depois dos quarenta?


 POR RICKARDO MEDEIROS

E depois dos quarenta?

Estava aqui folheando o meu livro da vida - Aquele que está impresso na memória. Que nos constrói como seres humanos. E hoje me dei conta que já entrei para uma etapa de minha existência que me obriga a entender que se somos proezas de uma história, também somos feitos de partidas.

Quem já passou dos quarenta anos já deve também ter experenciado muitas despedidas: nossos ídolos de infância, nossos cantores preferidos da adolescência, nossa professora do primário, um coleguinha de escola, aquele amigo de meninice, que até então nem falava contigo, mas que ficou registrado em nosso livro como se o fosse pra sempre amigo. O inspetor da escola, o senhor simpático que morava na nossa rua, até aquele velho ranzinza que não gostava de crianças, está lá impresso com letras graúdas em alguma página do nosso livro de memórias.

Mas quando passamos dos quarenta... quando passamos dos quarenta é momento da gente entender que a vida não é um filme que sempre termina com um desenlace que nos acarinha. Que ela, por vezes é muito amarga e que é preciso segui-la mesmo com esse gosto azedo de fel em nossa boca.

Comecei falando dessas experiências que nos construíram para chegar a uma especialmente traumática e avassalante. Aquela que me destruiu completamente por dentro me deixando sem chão, sem ar, sem forças. Engraçado, mas também um dia me senti assim, quando ainda acomodado em seu útero: completamente dependente de suas forças vitais para continuar vivendo nela, com ela e por ela, fui arrancado dali, sem que me pedissem licença. E nessa primeira ruptura, quando deixei o seu interior comecei a instruir-me sozinho, a respirar sozinho, a digerir as coisas sozinho, a viver sem depender completamente dela. Mas doeu! Foi desconfortante. A diferença é que ela ainda está lá, me ajudando a superar tudo isso.

Hoje acordei folheando as páginas da minha vida em um capítulo especial, porque é como me sinto agora. Igualzinho a esse menino de oito anos que adorava seu colo, que usava o choro desesperado na falta de argumentos para reclamar alguma coisa, até mesmo o seu carinho. Hoje me sinto como aquele Ricardo menino que por qualquer pequeno motivo que fosse, corria para aquele colo confortável e restaurador.

E essas lembranças vem povoando minha cabeça ao passo que folheio esse livro inacabado carregado de cenas profundamente tristes, mas não apenas tristes. Houve sim, muitos momentos felizes.

Mamãe era uma mulher inigualável. Ela sabia tirar boas lições até de seus profundos traumas, sabia colorir as páginas em preto e branco de seu livro de memória e torna-lo bonito, agradável. Era isso que eu adorava. Ela falava de sua infância com um ar de saudosismo que me provocava.

Sem dúvidas, depois dos quarenta a gente tem muitas páginas escritas nesse livro mesclado por todos os gêneros literários. E agora começo uma nova etapa: o desfecho.

Depois dos quarenta anos, começo a minutar o desfecho de minha história sem contar com a principal personagem e autora que sempre me motivou a escreve-la. A única criatura do universo que sabia ler nas minhas entrelinhas. Seu amor, sempre foi assim: acima de qualquer problema.

Sinceramente? Não sei por onde começar. Depois dos quarenta sinto-me como aquele menino recém-saído do ventre outra vez: sem ar, sem ambiente...

Não sei como será. Dizem os mais experientes que a gente supera. Não sei até que ponto isso possa ser uma verdade. Só sei que metade de mim morreu com ela. Nenhum ser humano pode ser o mesmo depois que sua mãe deixa de existir no físico para povoar a anfiteatro de suas lembranças.

Hoje sei que começa uma nova etapa da minha vida. Um novo capítulo desse livro que já dá sutis sinais para a conclusão dessa biografia. Para muitos que o lerem verão que se tratará de um capitulo frio, estéril, sem aspirações, sem vida, sem ações, brincadeiras, sentimentos, pois é assim que me encontro hoje. Não me sinto um homem e sim um espectro que apenas vagueia, respira, come, bebe, mas que não almeja absolutamente nada.

Por enquanto, depois dos quarenta, essa é a minha vida, ou o que restou dela.


4 comentários:

  1. Perder entes queridos, realmente nos deixa incompletos.Um forte abraço,meu amigão e conte comigo sempre. Te amo!

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  2. Com certeza, amigo querido, sua vida não será mais a mesma. Seguirá incompleta e repleta da saudade que brotará. Haverá dias em que a busca e as lembranças serão mais intensas. Lindo seu texto. Bem preciso dentro da sua nova realidade. Uma certeza, porém, você pode continuar a ter, pois nada a mudará: você continua sendo o filho querido da sua mãe, motivo de orgulho para ela. Um grande abraço!

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    1. Obrigado por tudo o que tem feito, amiga. Embora não percebas, tuas palavras sempre serviram de balsamo para a minha alma cansada.

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