POR RICKARDO MEDEIROS
É que você cresceu. Independente de meu querer,
como tudo na natureza, como tudo o que foi criado pra respirar, você cresceu
sem pedir, involuntariamente! Entre os estupros das imposições, os gatilhos das
falações das pessoas daquela cidade e o assalto das sensações, você cresceu com
um entusiasmo contagioso e, às vezes, com uma ostentada arrogância. Você
cresceu de repente. Um dia te encontro, no outro te ligo, depois nos falamos pessoalmente
e raciocinamos alguma coisa de tal maturidade que eu senti que não poderia mais
enxergar as coisas como antes. Como você andou crescendo esses
anos e eu nem percebi. Já não tem mais aquele cheirinho do perfume que eu
gostava. Nossas gargalhadas, encontros, amigos, e aquele presente, já não faz
parte de nosso universo. Você andou amadurecendo num rito de subordinação
orgânica e indisciplina social. E eu nem percebi nada, fiquei esperando que você
não crescesse. Entre confidencias e cervejas, esperei inerte que a própria vida
te apagasse do meu caderno de crônicas. Pois
aqui estou, depois da primeira e da segunda música, com essa barba que me faz 10
anos mais velhos, ou intelectual desleixado, vou ficando mais velho e você continua
crescendo meio amestrado, vendo como escrevo, não a minha, mas as nossas crônicas
e nelas vou vendo nossos erros.
É por isso que quanto mais velho mais gosto de ir cedo às vezes pra cama. Para ouvir minha alma cochichando conversas e confidências entre os lençóis de nossa juventude, e os cobertores daquele quarto cheio de colagens e desenhos. Eu envelheci sem que nossas lembranças se esgotassem e finalmente cheguei à idade em que escrever começou a ser uma necessidade. Uma obrigação, uma ansiedade, pois é impossível deixar que tudo termine assim, num imenso nada. – E um dia quando eu morrer? Morrerá também a lembrança? Morrerá nosso amor que ainda dura em algum espaço do tempo? Obviamente que não! Preciso gerar algo de nós para que se perpetue e se eternize. Esse exílio, esse amor e esse desquite, vão durar sete anos bíblicos.
É por isso que quanto mais velho mais gosto de ir cedo às vezes pra cama. Para ouvir minha alma cochichando conversas e confidências entre os lençóis de nossa juventude, e os cobertores daquele quarto cheio de colagens e desenhos. Eu envelheci sem que nossas lembranças se esgotassem e finalmente cheguei à idade em que escrever começou a ser uma necessidade. Uma obrigação, uma ansiedade, pois é impossível deixar que tudo termine assim, num imenso nada. – E um dia quando eu morrer? Morrerá também a lembrança? Morrerá nosso amor que ainda dura em algum espaço do tempo? Obviamente que não! Preciso gerar algo de nós para que se perpetue e se eternize. Esse exílio, esse amor e esse desquite, vão durar sete anos bíblicos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário