POR RICKARDO MEDEIROS
O sentimento de ser e estar são o motor gerador de vida que acende as pessoas para a existência. Mas fica sempre a pergunta: Quem eu sou? Sou aquilo que vivo ou aquilo que trago? Explicarei. Três adolescentes frequentam a mesma escola, tentando viver suas vidas naturalmente sendo a diferença no meio daquele universo repleto de pessoas “normais”. Chegaram nessa fase inspirados por um movimento biologicamente natural, querem ser como são, na escola, na igreja e na presença de todos. Mas quem são eles? São aquilo a que pertencem e que os sustenta ideologicamente, ou são aquilo que sentem que trazem na pele, no sangue, no gene?
Estar com tantos diferentes e identificar-se com eles é bem difícil e exige certos sacrifícios, porque quanto mais próximos afetivamente se está dos iguais, mais se corre o risco de se afastar dos excluídos. Diria que devemos ir mais longe ainda: precisamos expandir nossos grupos aos que vivem outras rezas.
À medida que uma criança cresce, que sua mente se alarga, que sua visão de sociedade se amplia e que esse grupo, no sentido mais restrito, chega a certa madureza, a realidade da escola também se expande. Pois é na escola onde essas crianças que vivem em grupos devem fixar claramente suas prioridades. Como devem ampliar suas energias. Como vão viver suas vidas.
No caso citado antes, dos três adolescentes que estão na escola, não seria necessário que os colegas fossem acessíveis, complacentes e admissíveis, permitindo-lhes que se deem mais aos estudos e o convívio sadio? Não haveria então conflito e luta entre essência e pertença. A escola existe para que os frutos apareçam e nos frutos estão as sementes de amanhã. Assim também no corpo docente, a unidade dos professores deve ajudar e encorajar cada um a estar mais próximo do diferente. Está-se na escola para conviver com os outros, e, sobretudo para aprender com eles. A diferença não existe para si própria. Ela surge para algo que a ultrapassa, pertence aos outros, à humanidade, ao universo. É um dom oferece-la a todos os homens. E a escola é apenas um ponto de partida que permite alargar o coração à essas dimensões.
Às vezes certas escolas estão muito afastadas de seus objetivos. Os jovens não sabem claramente quem são e quem é o “seu povo”. Não sabem a que apelos responder. Alguns têm medo de se aproximar dos outros; não querem correr riscos de serem mal vistos, pois aceitar ser quem é, é aceitar ser ferido.
Fico impressionado com tanta diversidade nas escolas, porém as energias desses adolescentes estão de tal forma presas a outros projetos que não enxergam mais a realidade de suas próprias vidas. Muitas vezes tem projetos cegos. Por isso insisto que o melhor modo de entrar em uma escola é não ter projeto e viver intensamente a vida cotidiana com tudo o que ela implica de estudo, disponibilidade, acolhimento ao outro. A passagem para a boa convivência com as diferenças faz-se, então, naturalmente.
Quando se entra numa escola, entra-se numa aliança, num compromisso, mas também, e sobretudo, com aquele povo que é diferente. E lá dentro , quando se conhece o seu povo, quando se tem consciência de sua essência, sua origem, quando se percebe que se é responsável por tudo isso, então é possível um jovem ultrapassar-se. Quando se conhece o seu povo, sabe-se também que se tem necessidade dele e dos diferentes; somos dependentes uns dos outros. Não somos melhores do que eles. Estamos todos juntos.
Certos jovens não conseguem engajar-se com outros diferentes, pois estão muito cegos com suas próprias visões; não escutam, pois ficaram surdos com o barulho de suas próprias vozes. Alguns não querem conhecer quem é o seu povo, porque com esse reconhecimento aparece uma exigência terrível. Eles acabam tornando-se responsáveis pelo seu povo que sofre a exclusão, é obrigado a responder ao seu grito e a se ultrapassar por causa dele. É preciso crescer em sabedoria, em amor e humildade para melhor poder sê-lo.
Aquele que se sente inseguro e angustiado precisa da presença de um outro coração humano que lhe diga: “tenha coragem”. Se escrevo artigos e assumo papel de professor, é por causa dessa aliança; é ela que faz o fundo da minha vida. O resto é apenas serviço. Nossa escola não pode ser uma igreja, uma comunidade cristã, nem religiosa. Os jovens, na nossa comunidade, não devem ser acolhidos por serem necessariamente cristãos, brancos, héteros, isentos de necessidades especiais. Eles devem ser acolhidos porque "são". Eu sei que minha aliança com o diferente está ligada à aliança com o diferente que sou eu. Foi o meu ser diferente quem me atraiu para ela; foi unicamente pelo “ser” que fui capaz de responder ao grito dessa necessidade.

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