domingo, 21 de dezembro de 2014

O SENTIMENTO DE SER E PERTENCER


POR RICKARDO MEDEIROS

Nesse tempo, em que as pessoas estão cada vez mais despersonalizadas, é comum encontrar dentro de nossas escolas jovens que procuram agrupar-se, sobretudo quando se sentem sós, indefesos e tristes. Para esses, estar sozinho é insuportável. Estar junto, identificar-se com outras pessoas parece, então, uma forma maravilhosa de afirmar a sua identidade e de partilhá-la.
                                                                                                                                                     Mas sob outros pontos de vista, esses grupos podem se tornar um lugar terrível. É o lugar da revelação de seu egoísmo. Quando o adolescente começa a viver, todo o tempo, com outras pessoas que desejam também afirmar-se de forma intransigente, descobrimos então a sua tamanha pobreza, a sua incapacidade em se comunicar com alguns, seus  bloqueios, suas frustrações, seus ciúmes, seus ódios e seus gostos de destruição.                
Quando estamos do lado de fora podemos pensar que toleramos todo mundo, agora, em grupo, vejo como sou incapaz de aceitar, e como recuso a vida dos outros. E se sou incapaz de aceitar, o que fica de bom em mim e o que há de bom neles?                                
O grupo é a revelação bem penosa dos limites, das fraquezas e das trevas do ser humano; é a revelação, muitas vezes inesperada, dos defeitos escondidos em nós. E esta revelação é muito difícil assumir. Depressa se procura converter os outros a meu grupo, a minha concepção de vida, ou se não consigo, afasto-os de vez  fingindo que eles não existem.                    
Se somos compreendidos nos nossos limites e nas nossas capacidades, esses grupos, dentro ou fora da escola torna-se pouco a pouco, lugar de libertação, porque esses adolescentes descobrem que são aceitos  e queridos pelos outros, desse modo eles se aceitarão e se amarão melhor. Os grupos tornam-se então o lugar em que eles podem ser eles mesmos – sem medo, sem constrangimento. A vida em grupo aprofunda-se na confiança mutua entre todos. É então que esse lugar terrível se torna lugar de vida e de crescimento.                     
Essa etapa da vida, onde buscam se reconhecer nos grupos é o momento em que se descobrem suas essências e se aprendem a assumi-la. Pode-se então pensar que é ali que a pessoa começa a nascer.  Nós nascemos dessa procura.                                                                                   
Quando vejo aldeias de africanos, vejo que através de seus ritos e tradições eles vivem profundamente a vida comunitária. Cada um tem o sentimento de pertencer aos outros: aquele que é da mesma raça ou da mesma aldeia é verdadeiramente irmão.                            
O que vemos na nossa sociedade é completamente o oposto. Somos forçados e adestrados a renegar nossa essência em favor de uma tradição ditadora, massacrante e mutiladora.  Desde cedo na escola a criança aprende a ser como os outros. Os pais ficam angustiados quando o filho não se apresenta dentro do mesmo formato.  A gente já nasce sem esse sentido da diferença, por isso florescem tantos pequenos grupos que tentam reencontrar o que está perdido: a identidade.                                                                                                        
Temos muito o que aprender com o africano. Eles nos lembram de que o essencial da comunidade é um sentimento de pertencer a ela. Acontece, porém, que o sentido de pertencer a tal grupo, muitas vezes impede de olhar as outras comunidades com amor e objetividade. Então começa aí a tal da guerra das tribos. Às vezes a vida em grupo está baseada no medo. Os grupos, as tribos, dão a vida a um sentimento de solidariedade, protegem e dão segurança, mas não são verdadeiramente libertadores. Se alguém se separa do grupo, fica sozinho, com seus medos, suas fraquezas, diante das forças adversas da vida.           
Lembro-me sempre de Jessie Jackson, um dos discípulos de Matin Luther King, dizendo em uma assembleia de milhares de negros: “Meu povo é humilhado”. Madre Tereza de Calcutá diz: “Meu povo tem fome”. Meu povo é o grupo ao qual pertenço, a pequena parte da sociedade que vive as mesmas condições.  São aqueles que estão inscritos na minha carne, como eu estou inscrito na carne deles.  Quando eles falam “meu povo” não quer dizer que estejam num estado de superioridade com relação aos outros. A expressão “Meu povo” não implica outros que eu rejeito. Não, “meu povo” é o meu grupo constituído por aqueles que me conhecem e que me suportam. Pode e deve ser um salto para a humanidade inteira. Não posso ser um homem ou uma mulher universal se primeiro não reconheço o “meu povo” e, a partir dele; todos os outros.

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